Futuro : Como lidar com suas incertezas e ansiedade.

Já faz algum tempo que atuo como empresária no ramo de treinamentos e desenvolvimento pessoal , sem a certeza de um cargo público ou ainda um clt de anos, ainda assim recolhendo meus impostos. Por isso, estou em constante atualização da caixa de entrada para saber se há novos e-mails ou olhando o whatsapp com solicitação do meu trabalho. Estar à mercê das propostas de trabalho e fora de um ambiente controlado faz com que, entre um cliente e outro, exista incertezas em abundância acompanhadas de seu derivado mais comum, a ansiedade.
O exercício diário é entender, com paciência e confiança, que esse é um processo nem um pouco definitivo e cheinho de múltiplas possibilidades. Como ainda estou aprendendo com esse cenário onde prevalece a ausência das certezas, quero aproveitar esse ponto em que nada é certo para começar a trilhar nosso bate papo.
Em um ano de tantas mudanças nos diversos cenários, ao nosso redor e no universo particular, o ensinamento mais presente é de que é preciso saber lidar com algo intangível. O fato de que nada é totalmente certo. Afinal, apesar do falso controle sobre o plano das coisas previstas, a certeza é algo que escapa a todos, como um amontoado de dentes-de-leão já assoprados. E tudo bem. Mesmo.
A verdade é que temos de lidar, percebendo ou não, com um alto grau de imprevisibilidade o tempo todo, desde as incertezas mais duras de encarar aquelas miudezas do dia a dia, que também nos fazem sofrer.
As incertezas, claro, não são sempre extremas, feitas por rompimentos que nos colocam em terreno desconhecido. Existem outras pequenas expressões de sua presença com as quais precisamos também aprender a conviver. Repare bem. Enfrentamos uma sequência de “ses” em considerações que nos põe em dúvida e deixa a sensação de estagnação ou impotência – pode ser o país e suas indefinições o que nos preocupa, o emprego instável, o dinheiro que talvez não dê para o mês, um relacionamento inseguro ou o corriqueiro “o que fazer agora?” das mais diversas situações.
A soma dessas incertezas externas, mesmo quando passam despercebidas ou não são processadas de forma consciente, exerce grande influência em nós. Assim estabelecendo uma intensa troca de sensações que acaba afetando não apenas a gente mesmo mas as pessoas ao redor. Portanto, encarar tempos ou situações de incerteza é também saber aproveitar as oportunidades que a vida nos dá para fazer diferente.
Porém, é preciso coragem para enfrentar esse vazio, “o espaço da liberdade” onde o voo acontece, em vez de preferir as gaiolas, “o lugar onde as certezas moram”.
Mas por que tememos aquilo que não é certo? Porque aprendemos a olhar a vida desse jeito. O enredo que nos contam é de que é preferível perseverar em busca de uma certeza absoluta em vez de aceitar a natureza da vida, incerta em essência. O detalhe que excluem dessa narrativa é que ocupar um lugar bem distante da zona de conforto pode ser positivo à medida que nos impulsiona a encontrar recursos dentro da gente para lidar com as novas situações.
Afinal, a realidade é feita da convivência com as impermanências que surgem numa alternância desassossegada: assim que nos satisfazemos com a resolução de alguma questão que nos atormenta, logo vem outra pedindo a nossa atenção. Para complicar só mais um pouco, os questionamentos geralmente não vêm em fila, cada um por vez, mas vão se apresentando de forma aleatória e nos submetendo a seu ritmo caótico. Então, mais uma vez, precisamos ser flexíveis e nos dedicarmos à adaptação a uma nova ordem recém-estabelecida que vai durar só até a próxima novidade que já vem chegando.
Numa interpretação livre, tendo a acreditar que uma das chaves para lidar com as incertezas seja, provavelmente, ir na contramão disso e nos aproximarmos uns dos outros, o que trará novamente a sensação de que não estamos sozinhos e que podemos atravessar tudo isso juntos.
Para atravessar esse período é necessário que a gente reconheça a instabilidade a partir de uma atitude de empatia e de compreensão diante do novo, com reflexões mais cuidadosas sobre os nossos valores e comportamentos e o cultivo de uma relação mais generosa com o outro.

Futuro de incertezas
Mas será que vamos ter de andar sempre nessa corda bamba? Calma, não é bem assim. Existe um momento em que tudo ganha nova forma e você volta a se sentir seguro ou confortável.

Nassim Nicholas Taleb, pesquisador e financista, autor de A Lógica do Cisne Negro (Record), elaborou uma teoria para explicar as características em comum desses momentos extraordinários que acontecem de supetão, como reviravoltas, crises ou até mesmo tragédias: são “inesperados” (nada do que aconteceu antes apontava para essa probabilidade); têm “grande impacto” (nos encontram desprevenidos e capturam a nossa atenção); e geram “explicações” (pelo temor da incerteza, eventos assim exigem argumentos que os justifiquem). Cisnes negros são mais comuns do que podemos supor. Se prestarmos atenção, podemos em breve testemunhar um deles.

Afinal, o momento de poucas certezas, sobretudo no cenário político e econômico, quando tudo parece tão inacabado, pode significar a construção de uma nova realidade. Ainda não conseguimos antecipar, mas seguramente está em andamento – é que as mudanças estão em curso antes de serem percebidas como resultado.

Além disso, a rotina embaça a nossa capacidade de enxergar. E, então, só a partir de certa perspectiva sobre os fatos, responsável por dar-lhes sentido, é que vamos conseguir reconhecer a nova ordem das coisas.
A beleza está, enfim, na disposição em seguir mesmo não conhecendo o fim da história. Ou seja, continuar mesmo tendo de lidar com as incertezas do caminho e tentando encontrar propósito no cotidiano.
Lembre-se de que amanhã há de ser outro dia, não podemos controlar tudo.
Expandindo nossa percepção, talvez a gente aprenda que os resultados nada mais são do que a intensa elaboração de suas partes, uma a uma. Coisas acontecem apesar de a gente querer ou não. Não há como controlar isso.
Mas, para reconhecer a inteligência por trás dos acontecimentos e aprender a apreciar a beleza do mistério, é preciso não se apegar tanto na ordem pretensamente estabelecida pelo controle. E, assim, aceitar a liberdade que a incerteza, obstinada, está disposta a nos oferecer a cada dia. “Vamos?”, ela nos convida, sem antecipar o destino.
Sem o inconveniente das certezas desajeitadas, conseguimos finalmente perceber que a sucessão dos dias está em plena atividade e o quanto tudo isso pode nos surpreender e trazer as repostas que tanto buscávamos. As surpresas que nos cabem estão sempre à espreita.
Aprenda a gostar de observar aquele momento limite em que as incertezas se resolvem e ganham finalmente um sentido.
Força!